Viagem iconográfica: São Sebastião, de símbolo religioso a ícone gay

São Sebastião é, sem dúvida, um dos santos mais venerados e representados da Igreja Católica. Sua imagem mais famosa é a de um homem quase todo desnudo, forte, com flechas penetrando seu corpo, sem esbanjar dor, nem sofrimento, mas êxtase... No entanto, sua primeira representação conhecida, do ano 682, é completamente distinta da que conhecemos hoje. Conheça a trajetória iconográfica desse importante santo católico, que se tornou também um ícone gay.

São Sebastião, Guido Reni (1615) – Imagem: Wikimedia

Seu primeiro retrato conhecido foi feito no século VII, na Basílica de São Pedro Acorrentado, em Roma. Trata-se de um homem já em idade avançada, com barba e cabelos brancos, completamente vestido, com sua túnica elegante, e sem nenhuma flecha. Temos, portanto, uma representação totalmente distinta da que conhecemos hoje. O altar onde está essa imagem foi construído como um voto para afastar a peste que atingia a cidade naquele ano, pois a lenda era a de que isso havia acontecido na região da Lombardia depois da construção de um altar para ele na Basílica de São Pedro em Pavia.

Mosaico de São Sebastião – Imagem: Wikimedia

Mas quem foi Sebastião?

Nascido em Narbona, na França, no ano 256, mudou-se ainda jovem com a família para Milão, onde se alistou para o exército romano e, posteriormente, foi nomeado capitão da guarda oficial dos imperadores Diocleciano e Maximiano, que não sabiam que ele era adorador de Cristo. Diocleciano havia proibido o culto cristão, pois isso representava um perigo para a unidade do império. Quando descobriu a verdade sobre Sebastião, considerou-o traidor e o condenou à morte. Sebastião foi então alvejado por flechas por seus antigos companheiros e jogado em um rio, mas não faleceu. Foi posteriormente encontrado e socorrido por (Santa) Irene. Após se recuperar, apresentou-se novamente a Diocleciano, mas este ordenou que ele fosse açoitado até a morte e depois jogado no esgoto público de Roma, para que não fosse venerado como mártir. No entanto, seu corpo foi encontrado e resgatado pelos cristãos, que o enterraram nas catacumbas dos apóstolos. No século IV, o imperador Constantino, que se converteu ao cristianismo, mandou construir, em sua homenagem, a Basílica de São Sebastião, perto do local do sepultamento, para abrigar o corpo do santo. Foi nesse período que se iniciou o seu culto.

Por sua fama de protetor contra as pestes que assolavam diversas regiões, ocupou um lugar importante perante a população da Idade Média e foi uma das figuras preferidas dos pintores do Renascimento. Para mostrar sua força frente às pragas, São Sebastião foi retratado predominantemente com um corpo jovem, viril, musculoso e resistente às flechadas. Em uma representação feita por volta de 1440 pelo gravurista alemão conhecido como Mestre das Cartas, já podemos observar esses elementos.

O Martírio de São Sebastião, Mestre das Cartas – Imagem: The Metropolitan Museum

O auge dessa representação de São Sebastião veio, portanto, com o Renascimento e seus ideias clássicos de beleza. Bellini, Mantegna, Botticelli, Botticini e Ticiano são alguns dos pintores que o retrataram dessa forma.

São Sebastião, Giovanni Bellini (~1464) – Imagem: Boston College Libraries

São Sebastião, Andrea Mantegna (1470) – Imagem: Wikimedia

O Martírio de São Sebastião, Sandro Botticelli (1473) – Imagem: Wikimedia

São Sebastião, Antonello da Messina (~1476) – Imagem: Wikimedia

São Sebastião, Pietro Perugino (~1495) – Imagem: Wikimedia

Martírio de São Sebastião, Il Sodoma (~1525) – Imagem: Wikimedia

São Sebastião, Ticiano (~1570) – Imagem: Wikimedia

São Sebastião também é um dos grandes destaques do pintor El Greco. O Martírio de São Sebastião, um óleo sobre tela de grandes dimensõestraz o santo em uma posição que realça sua musculatura.

O Martírio de São Sebastião, El Greco (~1578) – Imagem: Wikimedia

Essa iconografia consolidada por todos esses grandes pintores seguiu firme e forte ao longo do século seguinte. Guido Reni, por exemplo, um importante pintor do Barroco Italiano, retratou São Sebastião diversas vezes. Torso desnudo, flechas, olhar indiferente ao sofrimento, corpo amarrado a uma árvore, pano cobrindo a genitália...

São Sebastião, Guido Reni (1625) – Imagem: Wikimedia

Outras representações que merecem ser destacadas é a do pintor italiano Ludovico Carracci e a do holandês Gerrit van Honthorst, que retrataram São Sebastião de uma forma não convencional ao que estava sendo feito até então. Enquanto o primeiro traz o santo caído, jogado no esgoto de Roma, fazendo menção a outro momento de sua vida, e não o das flechas, o segundo representa o mártir sem o corpo completo, meio caído em uma posição sentada e com sangue escorrendo, chamando a atenção pelo seu naturalismo, parecendo até uma fotografia.

São Sebastião jogado na Cloaca Máxima, Ludovico Carracci (1612) – Imagem: The Getty Museum

São Sebastião, Gerrit van Honthorst (~1623) – Imagem: The National Gallery

Trazem, portanto, versões mais humanizadas de Sebastião, assim como as seguintes pinturas de Marco Antonio Bassetti e Antonio de Bellis. Santa Irene inclusive começa a aparecer em muitas representações, amparando um Sebastião debilitado.

Um estudo para São Sebastião, Marco Antonio Bassetti (~1619) – Imagem: Wikimedia

São Sebastião amparado por Santa Irene, Antonio de Bellis (~1645) – Imagem: Wikimedia

Dessa forma, todas essas representações de São Sebastião começaram a servir de referência para os homossexuais. É tanto uma figura de desejo, por seu corpo musculoso e atraente, quanto um semelhante, que foi violentado e morto por ser quem era. Além disso, há a questão do sadomasoquismo, pois, em muitas representações, apesar das flechadas, não observamos sofrimento, mas êxtase... Entre as representações posteriores que exploraram essas questões e contribuíram ainda mais para essa construção imagética, temos o filme britânico “Sebastiane”, de Derek Jarman, lançado em 1976. Com ares pasolinianos é, de fato, um filme bem homoerótico e foi alvo de controvérsias justamente por tratar São Sebastião como um ícone gay.

Sebastiane, Derek Jarman (1976) – Imagem: Divulgação

Temos também as fotografias estilizadas de Pierre et Gilles, casal de artistas franceses, feitas nas décadas seguintes com modelos de diferentes origens, mas todos com corpos definidos.

 Fotografias de Pierre et Gilles

Outro fator que contribuiu para que São Sebastião se tornasse uma referência gay foi o advento da AIDS, que fez resgatar sua aura de proteção contra as pestes. Um artista que representou o santo por essa questão foi o estadunidense Tony de Carlo, que começou uma série em homenagem a São Sebastião nos anos 80 em resposta à epidemia e continuou até o fim da sua vida, em 2014, fazendo mais de 40 representações do mártir. “Eu o escolhi por ser um santo protetor contra a peste”, afirmou o artista em uma entrevista, onde disse também que, em 2001, encontrou em uma loja católica uma estátua do santo com a etiqueta “Santo Padroeiro dos Homossexuais”. Suas versões são mais estilizadas, trazendo diversos tipos de homens. Embora não tenham o corpo sarado, muitas vezes ainda apresentam o torso desnudo. Além disso, as flechas e o rosto sem esboçar sofrimento também continuam.

Algumas das obras da série em homenagem a São Sebastião do artista Tony de Carlo

São Sebastião serviu inclusive de inspiração para a capa de uma revista gay britânica em 2007, reFRESH, que trouxe um estereótipo da beleza padrão renascentista, o ator e modelo francês Sebastien Moura, como o santo alvejado pelas flechas.

Capa de julho de 2007 da revista gay britânica reFRESH

Além disso, diversos artistas gays contemporâneos seguiram na mesma linha dessa iconografia clássica do mártir, realçando o corpo sarado e abusando do homoerotismo, como podemos observar abaixo com as obras de Christopher Olwage, Rick Herold, Regan O'Callaghan e Oscar Magnan.

Autorretrato como São Sebastião, Christopher Olwage - Imagem: Internet

São Sebastião, Rick Herold - Imagem: Internet

São Sebastião, Regan O'Callaghan - Imagem: Internet
 
São Sebastião, Oscar Magnan - Imagem: Internet

Enfim, são muitos os artistas que fizeram referência a São Sebastião, gays ou não. Não podemos deixar de mencionar o japonês Yukio Mishima, o estadunidense Keith Hering e a mexicana Frida Kahlo, como podemos observar abaixo.

Yukio Mishima como São Sebastiáo - Imagem: Kishin Shinoyama (1966)

São Sebastião, Keith Haring (1984) - Imagem: The Keith Haring Foundation

O veado ferido, Frida Kahlo (1946) - Imagem: Internet

No Brasil, no ano 2000, mais precisamente na data em homenagem ao santo, dia 20 de janeiro, o Grupo Gay da Bahia divulgou um documento proclamando São Sebastião como o patrono dos gays. Segundo seu presidente, Luiz Mott, também professor de Antropologia na Universidade Federal da Bahia, os homossexuais veneram o santo como seu protetor desde a Idade Média. “As gravuras e imagens de São Sebastião sempre o mostram seminu e com pose e expressão bastante efeminado, o que reforçou ao longo dos séculos a identificação deste santo mártir como ícone gay. Famosos pintores gays renascentistas, como Sodoma e Boticelli, pintaram São Sebastião reforçando ainda mais sua nudez e efeminação. Oscar Wilde e Garcia Lorca, ambos homossexuais, eram devotos e chegaram a fazer esboço da pintura deste santo”, destacou.

Ainda segundo Mott, “a biografia de Sebastião relata que ele era o soldado romano preferido do Imperador Diocleciano, apontado por historiadores como um dos governantes homossexuais de Roma. O martírio de São Sebastião teria sido pelo fato dele ter acabado o ‘caso’ com Diocleciano, depois de ter se convertido ao cristianismo”, afirma. Especulações à parte, o que sabemos é que a iconografia padrão que temos atualmente, ou seja, a representação de São Sebastião seminu, com um corpo definido e musculoso, alvo de flechadas, mas sem sofrimento e, muitas vezes, até mesmo com uma expressão de êxtase, fizeram com que ele ultrapassasse o simbolismo religioso e se tornasse um ícone gay. Fora do armário, em posição de destaque. Viva São Sebastião!

Por Tiago Elídio...

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